segunda-feira, 23 de junho de 2014

Vulto


O frio tépido da noite
O couro aquecido da roupa
As pedras sob a sola dos sapatos
O cabelo a cair pelos ombros

O som dos instrumentos a vibrar
Os corpos a se mover conforme a melodia musical
Fumaças de cigarro a eclipsar as vistas
Mistura de odores de perfumes e bebidas
Confusão dos sentidos, embriaguez do pensar

Na multidão, uma sombra conhecida
Um rosto que não se vê,
Um jeito de andar que já se viu
Mãos de instrumentista
Menino que se fez homem
E some

A busca, a procura
Olhar ébrio, desejo sóbrio
Angústia de quem já provou
Mas não por completo
Que almeja mais
Do que já não se tem

Um toque que queimou
Um cheiro que deixou
Beijo que a sanidade levou
Volúpia dos corpos entrelaçados
Tão intensa e tão efêmera

Vulto que entre outros vultos
Desliza, desaparece, declina
Que foge ao contato
Que a alma adentra

Nome gravado em chamas
Figura que se dissolve e, no entanto,
Permanece no pensamento
Fervor que se torna insônia
Fantasma, preso nas lembranças
Que se esvai em sutil névoa pelos dedos

Vulto, sombra, fantasma:
O que restou
Do que se foi...


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