sábado, 28 de junho de 2014

Poema Metalinguístico


O poeta vive através daquilo que escreve:
Não há que ser real,
Um sonho que seja
No transcorrer da madrugada,
Um delírio lúcido
Que matéria de poesia se pode tornar.

Uma brisa que passa,
Uma canção a tocar,
Expressões perdidas no vácuo,
Sentimentos legítimos ou imaginados,
Minúsculas percepções sensoriais...

Formas,
Frases,
Ideias,
Conceitos,
Trejeitos...

Inspiração no tudo ou no nada,
Desejo que pode não ser desejo,
Imagens tais quais quimeras,
Letras, garatujas, rabiscos, borrões
Que tomam feição de palavras.

O que significa,
O que se interpreta,
A mensagem por trás da mensagem:
Cabe ao leitor decifrar.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Carpe Diem

Longe da multidão
Tendo por testemunhas apenas o céu noturno,
A natureza e os mortos
Entregamo-nos ao nosso breve amor.

Dois seres
Tornados unos no enlace dos corpos
Tão diferentes pelo trilhar da vida
Permitindo-se o prazer do instante.

Desejos obscuros,
Tirânicos, vulcânicos dentro da alma de um;
Desconhecidos, sombrios, indecifráveis
Na percepção do outro.

O que é real ou imaginário?
Não importa,
Pois mesmo na efemeridade do sentir
Nada supera o deleite de um momento.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Vulto


O frio tépido da noite
O couro aquecido da roupa
As pedras sob a sola dos sapatos
O cabelo a cair pelos ombros

O som dos instrumentos a vibrar
Os corpos a se mover conforme a melodia musical
Fumaças de cigarro a eclipsar as vistas
Mistura de odores de perfumes e bebidas
Confusão dos sentidos, embriaguez do pensar

Na multidão, uma sombra conhecida
Um rosto que não se vê,
Um jeito de andar que já se viu
Mãos de instrumentista
Menino que se fez homem
E some

A busca, a procura
Olhar ébrio, desejo sóbrio
Angústia de quem já provou
Mas não por completo
Que almeja mais
Do que já não se tem

Um toque que queimou
Um cheiro que deixou
Beijo que a sanidade levou
Volúpia dos corpos entrelaçados
Tão intensa e tão efêmera

Vulto que entre outros vultos
Desliza, desaparece, declina
Que foge ao contato
Que a alma adentra

Nome gravado em chamas
Figura que se dissolve e, no entanto,
Permanece no pensamento
Fervor que se torna insônia
Fantasma, preso nas lembranças
Que se esvai em sutil névoa pelos dedos

Vulto, sombra, fantasma:
O que restou
Do que se foi...


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sobre você...



Lânguida e alquebrada, forço-me a caminhar
Sozinha, num parque, a luz do luar
Músicas a me embalar e lembranças tentando sufocar
Tudo em vão, pois elas insistem em aflorar

Começo a me lembrar:
Da vez primeira que lhe vi
Que todos ao meu redor sumiram
Como se somente nós dois ali pudéssemos estar

Continuo a lembrar:
Da sua presença dominando o recinto
Ao mesmo tempo que eu lhe percebia tão menino
A quem não conseguia parar de observar

Ainda a lembrar:
Do som da sua voz, do seu sorriso, de cada traço
Do seu corpo tão próximo ao meu
Mas que não sabia se podia tocar

Insisto em lembrar:
Da textura suave da sua pele
Do perfume que deixou em mim
Quando, enfim, pude me aproximar

Principalmente a lembrar:
Dos seus cabelos perdidos entre os meus dedos
De cada pedaço seu, de cada parte
Dos nossos corpos juntos a se acariciar

Restou-me, por fim, a memória a torturar
Com o terno desejo contido em seu olhar
E seu semblante que, num retrato, fico a contemplar
Desesperada, ansiosa, iludindo-me em mais uma vez lhe encontrar.

Sobre mim...


Eu sinto o tempo passar
Mais rápido que possa perceber
Às vezes, mais lento que consigo suportar
Mudanças em mim que não sei entender

Pensamentos, ideias, concepções a compreender
Anseios e dúvidas insistem em perdurar
Menina que a vida fez amadurecer
Mulher que ainda se ilude ao sonhar

Devaneios que levam a amar
O que talvez não se permita concretizar
Desejos que fazem o corpo estremecer
Sensações e imagens que não há como esquecer

Busca diária de quem precisa aprender
Que não é a vida que faz sofrer
Mas as escolhas a realizar
Para que, sem temor, possa me entregar.